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Vida nos campos - MAIO
Jardins
ESTAMOS no mês especial das flores. Neste mês vigia-se pela boa ordem e limpeza de terras
em que vivem as diversas plantas, sachando-as para aumentar o efeito
da acção do sol e do ar, desafrontando-as de plantas nocivas e
inúteis, e regando-as com toda a regularidade e atenção.
A melhor hora para se proceder às regas é aquela em
que a evaporação rápida da água não venha prejudicar a sua acção.
Sendo alguns de opinião que durante o calor se deve regar de manhã,
para que a humidade atenue nas horas de maior calor o seu efeito
escaldante, parece averiguado ser mais conveniente regar-se de
tarde, porque a prolongação do estado fresco da terra melhor
resistência prepara às plantas para o efeito do calor do dia
seguinte. Não deixa por isso de ser aconselhável, especialmente nos
jardins de mais exposição, além das regas pela tarde, refrescar de
manhã o chão e as plantas com um chuveiro leve e rápido.
A melhor água para regas de jardins é a que se pode
aproveitar das chuvas.
A água corrente de rios ou regatos também é boa,
embora de menos confiança. A água estagnada tem o valor fertilizante
das matérias orgânicas que traz em suspensão, mas pode na sua
evaporação causar doenças ao apaixonado que mais se demora preso ao
encanto sedutor das flores. As águas dos poços são em geral muito
carregadas de princípios calcários, muitas vezes prejudiciais às
plantas; pode contudo tornar-se melhor se a demorarmos em repouso
durante algum tempo em depósito bem exposta ao ar. Servem para isto
muito bem os tanques de ornamentação.
O excesso de água prejudica a planta, especialmente
se o terreno não tem a permeabilidade necessária para rejeitar esse
excesso. Em vaso convêm deitar no fundo areia, pedras ou mato para
evitar a retenção de águas junto às raízes.
Horta
À maneira que o calor vai apertando, se vão tornando
mais necessárias também neste ramo de cultura as regas dos talhões
tanto de plantação nova, como já em plena produção de hortaliças.
É este o mês de se plantarem abóboras, cujo
desenvolvimento tão fácil e interessante se torna onde não falte
agua.
A abóbora, cuja cultura é relativamente barata e
facílima, é um alimento de primeira ordem para todos os animais
domésticos. Longe de ser pobre a sua acção alimentadora, como é
vulgar julgar-se, está averiguado por análises ser de uma grande
riqueza em elementos nutritivos.
O retalhamento da abóbora é facilmente feito à faca,
para pequenas porções, e com máquinas especiais corta raízes, para o
seu consumo em maior escala.
Vinha
Nas vinhas começa a enxofração dos cachos
para se combater a aparição do oídio, também conhecido pelo nome de
cinzeiro.
O enxofre é o remédio mais pratico e económico para
este mal, e é aplicado, bem pulverizado, sacudindo sobre a videira
pequenos tubos de folha de tampa perfurada, sacos de borracha, ou
foles com ou sem deposito de folha, e ainda para vinha de maior
importância por meio de aparelho que disposto sobre as costas do
operário permite a distribuição perfeita com a agulheta de ar
comprimido.
Como ainda se torna necessário combater um outro mal
que flagela a cepa por esse tempo, e o remédio a empregar é o
sulfato de cobre, tem a industria combinado este sal com o enxofre
para que se possa aplicar ao mesmo tempo os dois produtos num só
trabalho; é o que chamam enxofres cúpricos.
Campo
VAI caminhando o desenvolvimento dos trigos para a
sua completa maturação. Se as circunstâncias foram favoráveis, também se
desenvolveu a erva nas terras destinadas a pastos, ou nos prados, e
o lavrador trata de a cortar para com ela alimentar o gado de
manjedoura.
O corte da erva faz-se com foices, gadanhas ou
máquinas tiradas por animais segundo a quantidade de trabalho a
executar, ou a aplicação a dar à erva.
Pode esta ser cortada à foice se é necessário trazer
para a arribana apenas o bastante para o consumo de cada dia; quando
porém se quer fazer um corte mais abundante para arrecadar, o
processo é diferente.
Cortada a erva fica no chão exposta ao ar e acção do
Sol para que evaporada a agua que contém, possa ser mudada sem
perigo de fermentação. Não deve porém ficar aí abandonada, pois que,
sendo a evaporação da água produzida pela acção de elementos que vêm
de cima, torna-se esse enfeito mais moroso ou nulo nas camadas
inferiores em contacto com a terra mais ou menos húmida. É preciso
virar a erva para a sua perfeita preparação. Servem para esse
enfeito as forquilhas para o trabalho normal, ou máquinas especiais
chamadas penadeiras puxadas por animais.
Transformada assim a erva em feno, pode ser
conservada indefinidamente e constitui uma rica alimentação para
toda a qualidade de gado estabulado. / 347 /
Era para desejar que só nossos lavradores prestassem
a sua atenção à cultura racional da erva e sua preparação, porque
não tem comparação a sua utilidade alimentar com a da palha de trigo
cuja aplicação para este fim só se justifica como aproveitamento de
um resíduo nas debulhas a pé de gado, e que o hábito leva a exigir
como produto imprescindível nas modernas debulhas à máquina.
Nos países em que reina mais humidade, torna-se
moroso e muitas vezes mesmo impossível secar convenientemente a
erva, e então é esta arrecadada antes da completa evaporação da água
que contem. Para evitar então a fermentação natural que se
estabeleceria, torna-se necessário defendê-la da acção do oxigénio
do ar e para isso tem de ficar bem comprimida e coberta. Chama-se a
este processo ensilagem e está muito em uso especialmente na
América, Inglaterra e outros países, começando já ultimamente a ser
empregado entre nós, não que nós não possuíssemos um clima mais
favorável à preparação na erva, mas por ser esse meio de conservação
mais prático e económico.
As nossas terras de pastagem, se não têm as vantagens
que o estudo alcançou poderem obter-se, como qualidades mais
resistentes ao calor, vegetação suficiente para repetidos cortes,
têm o encanto, para nós suficiente, de ser espontânea a sua
produção, e essa matizada de lindas papoilas de um vermelho
vivíssimo, e das poéticas boninas e malmequeres que tantas
revelações fornecem aos apaixonados e apaixonadas, sempre desejosos
de levantar uma pontinha ao véu que lhes encobre o futuro da vida.
Vida no sport
Jogos olímpicos em Atenas
Com a presidência do Príncipe Real da Grécia,
realiza-se em Atenas, de 22 de Abril a 2 de Maio, a mais importante
serie de Jogos Olímpicos desde a revivescência deste exercício
clássico, a qual data de alguns anos.
Todas as nações civilizadas foram convidadas para se
fazerem representar pelos indivíduos mais distintos no sport
atlético. Mas um tal acontecimento tem, além da sua importância
profissional, um alcance social que não se pode negar, pela
solidariedade internacional a que serve de estímulo.

Realizam-se os Jogos Olímpicos Internacionais no
Stadion Panatheniano. Os concursos são variadíssimos, incluindo
corridas pedestres, corridas de cestos, tiros de diversas espécies,
entre Telles o disco, a pedra e a arma de fogo, luta atlética,
lawn-tennis, futebol, natação, mergulhagem, remos, e até a arte do
biciclo, muito popular entre os gregos.
Só é permitida a entrada de amadores, designando-se
sob esta classificação todos os indivíduos que nunca competiram para
um premio em dinheiro, nem aceitarem remuneração pelos seus
exercícios, nem sejam atletas profissionais, permitindo-se-lhe,
contudo o receber indemnização pelas suas despesas de viagem.
Entrementes, há desde já grande afluência para
exercícios preparatórios no Stadion, o qual foi organizado por
Lycurgo na primeira metade do quarto século a. C. Tem cerca de 200
metros de comprido por 43 de largo e pode acomodar 40.000
espectadores.
Automóveis eléctricos
EXPERIMENTOU-SE eléctricos ultimamente, sob os
auspícios do Automobile Club de França, um veículo de motor
eléctrico, construído pelo conhecido estabelecimento dos Vedrines,
de Neuilly. É um cab de três lugares, provido de acumuladores
Agathos com capacidade de 250-ampére-hora, e pesando 700 quilos. O
cab andou 62 milhas e meia de uma assentada, com a velocidade média
de 21 milhas por hora. É este um grande progresso sobre os carros
eléctricos até hoje usados, nos quais o limite para os acumuladores
não passa geralmente de 30 milhas. Esta capacidade dupla de
distância acrescentará sem dúvida a utilidade prática deste
vantajoso meio de locomoção. Crescerá a voga dos veículos eléctricos
se acaso, como agora se afigura possível, se poderem usar mais
poderosos acumuladores sem aumentarem anormalmente o seu peso.
O Jiu-Jitsu na polícia francesa
O exercício japonês, ao qual consagramos um artigo
especial no nosso número 4, vai-se generalizando na Europa. Mr.
Lépine, comissário chefe da polícia francesa, organizou ultimamente
um curso de jiu-jitsu para os polícias de Paris, a fim de que eles
estejam adestrados no meio de defesa pessoal, que é actualmente
considerado de maior eficácia. / 348 /
Vida na arte
O escultor Calmels
PODE dizer-se que a arte portuguesa acaba de perder
um dos seus mais insignes cultores na pessoa de Anatole Calmels,
porque, embora o artista não fosse português de nascimento,
tinham-no nacionalizado dezenas de anos de permanência entre nós,
assim como os numerosos trabalhos que deixou no nosso país. Avulta
entre Telles o belo grupo que encima o Arco de Triunfo da Rua
Augusta, deixando o seu nome ligado à consagração das glórias de
Portugal.
O velho artista, retirado há anos, pouco trabalhava.
A sua ultima obra foram, cremos, as duas cariátides que ladeiam o
portal do Palácio Palmela, A sua morte foi muito sentida no mundo da
arte, onde todos o veneravam como mestre.
A nova peça de Donnay
REPRESENTOU-SE no teatro Francês o drama de Donnay,
Paraître, o qual não parece acrescentar muito à glória do
dramaturgo. Versa sobre a força dissolvente da opulência numa
família da alta burguesia.
Em consequência do casamento de uma menina dessa
família com um milionário, alteram-se para mal todos os austeros
costumes do lar. O pai arranja uma amante, a esposa do filho cai nos
braços do cunhado milionário, mais talvez por ambição que por amor,
e finalmente esse perturbador da virtude doméstica é morto por um
tiro do marido atraiçoado.
Tema de pouca novidade, defendido pelo brilhantismo
do diálogo, eriçado de pontas satíricas, e tentando rejuvenescer-se
por um acto de sobreposse, como epílogo, depois do natural
desenlace.
Fonte monumental no Rio de Janeiro
INAUGUROU-SE no Jardim da Glória, no Rio de Janeiro,
a fonte monumental que os comerciantes do Porto, Srs. Adriano Pinto
Ramos & Irmão ofereceram àquela capital.
A precipitação com que era mister realizar a oferta
não permitiu que ela fosse trabalho de portugueses, como desejavam
os oferentes, que nesse intuito se dirigiram ao eminente escultor
Teixeira Lopes. Como este artista não pudesse encarregar-se da
execução do monumento, foi ele confiado a um escultor francês, que
dessa missão se desempenhou com inteligência.
Se não produziu uma obra-prima, fez pelo menos um
monumento interessante e imponente. O material é magnífico: mármore
italiano. No alto ergue-se a figura do Amor. Em baixo três mulheres
de bela escultura saúdam essa figura simbólica. A água despenha-se
em três golfões sobre a larga taça de desenho sóbrio e elegante.
Celebridades musicais em Lisboa
Foi Lisboa ultimamente o prazo dado de umas poucas de
celebridades líricas. Os maestros Leoncavallo, Giordano e abade
Perosi honraram sucessivamente a cadeira do maestro de orquestra,
regendo obras suas, em que pela novidade se notabilizaram as
oratórias do último, Moisés e Ressurreição de Cristo.
O ilustre Saint-Saëns mostrou no piano e no órgão as suas admiráveis
faculdades, e por último Paderewski arrebatou o auditório com a
excentricidade, por vezes genial, da sua execução.
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