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Senhora do Pranto tem todos os anos a sua romaria de devotos, que lá
vão piedosamente ofertar-lhe, junto com as suas orações fervorosas,
cordeiros e trigo, frutas e flores.
A ermidinha fica arredada do caminho, lá
para baixo, quase sobre a rocha, distante dos povoados, olhando o
mar, sorrindo aos navios que ao longe passam, abençoando os
pescadores que todo o dia lidam nas águas.
Naquele santo dia da Senhora do Pranto,
despovoam-se as quatro freguesias mais próximas da sua rústica
ermidinha. O adro e os campos de em volta estão cheios de gente que
ri e canta, ao som da viola, findo o jantar de pão e frutas, sobre a
toalha verde da relva. E até que a tarde morra, pelo estreito
carreiro que vai dar à ermidinha, os romeiros continuam a descer
numa festiva via-sacra como uma fita ondeante de mil cores estendida
sobre o verde clara das searas.
E a boa velhada parece ter, nesse dia,
os olhos cheios daquele descuidado riso da sua mocidade, vendo as
danças e folgares da rapaziada, ouvindo a gritaria chilreante das
crianças.
*
Senhora do Pranto! Senhora do Pranto!
Vê como os teus filhos riem junto da tua
ermidinha branca, redimidos pelo pranto que choraste!
Olha como essas ingénuas e boas almas
confiam em ti e te são gratas! Como vão, cheias de crença no remédio
dos seus males, tirar terra da sepultura da tua serva, beber agua da
tua fonte, beijar a pedra dessa nascente, onde para sempre ficou
gravada a forma do teu divino, pequenino pé! Olha I Senhora do
Pranto!
Mas bem pagas tu as ofertas das
sementeiras e frutas novas, das flores e da cera, com que os teus
filhos vão carinhosamente adornar-te o altar. Dás felicidade aos
noivos, tranquilidade aos velhinhos, riso às crianças, abundância às
terras... Bem lhes pagas tu!
Por isso eu nunca vi dia de festa tão
ingenuamente tocante, tão cheia de riso, tão doirada de crença. Como
é linda a tua festa, Senhora do Pranto!
O caminheiro que passa na estrada, e vê
lá em baixo a tua ermidinha, fica a cismar porque não seria ela
construída à beira do caminho e perto do povoado. Tenho mais pena,
Senhora do Pranto, da ignorância do caminheiro, que não sabe a linda
história da tua ermidinha, do que do mendigo que passou um dia com
fome, sem alcançar uma migalha de pão...
Tu sustentarás o mendigo, Senhora do
Pranto, e pode muito bem ser que o pobre caminheiro nunca tenha a
felicidade de ouvir a maravilha do teu poder.
Abençoa a minha pena, Senhora do Pranto,
que eu vou escrever a história assombrosa da tua ermidinha, para que
todos a saibam; / 334 / e ao verem-na de longe, levados pelas velas
dalgum navio, sobre as águas do mar, ou de passagem peja estrada
verdejante, se descubram e rezem uma Avé-Maria, porque foi grande o
teu poder, como é grande a tua misericórdia.
Abençoa a minha pena, Senhora do Pranto,
que eu vou escrever a história assombrosa da tua ermidinha.
Olha! Sabes tu? Ainda há pouco,
contando-a eu a um Doutor, tal como a ouvi no tempo santo em que era
também teu romeiro – ai! Há quantos anos, Senhora do Pranto! – Ele
disse-me, a sorrir, que essa historia não passava duma lenda...
Vê tu, minha boa Senhora, como são
incrédulos e vaidosos os sábios! Perdoa-lhes, perdoa-lhes, Senhora
do Pranto, que a tua bondade é bem maior do que os nossos pecados!
*
Pecadores! Escutai!
Quando morei, pequeno, numa das aldeias
vizinhas da rústica ermidinha, que lá em baixo se ergue sobre a
rocha, eu fui também romeiro da Senhora do Pranto.
Pecadores, como eu! Poisai aqui os
vossos olhos, lede a grandiosa história daquela ermidinha rústica!
Escutai!
*
A uns quinhentos metros da costa,
olhando-se da ermidinha para o mar, vê-se emergir das águas um
grande rochedo, em forma de cratera, que umas vezes as vagas
revoltas açoitam com fúria, que outras vezes as mansas ondas
suavemente beijam.
Foi há muitos anos, por um dia de
inverno. Próximo do rochedo, deitara as suas redes um barco de
pescadores, que um desabrido temporal acometeu de surpresa.
No horror das vagas alterosas a cerração
espessa, do vento que bramia, lodos os esforços dos pobres
marinheiros foram inúteis. O batel estava raso de água, rotas as
velas, quebrados os remos… E então, esses quatro homens que se viam
morrer mesquinhamente, deixando ao desamparo viúvas e órfãos, com o
rosto em pranto e as mãos em cruz imploraram o auxílio do céu. Uma
última vaga lhes quebrou a última esperança. O barco tinha sido
arremessado de encontro ao recife, despedaçando-se. Envoltos nas
ondas, sem forças para lutar, iam-se já afundando os míseros
náufragos...
Foi então que uma linda Senhora apareceu
sobre o rochedo, envolta numa auréola de luz, e estendeu o seu
divino braço para os pescadores, que subitamente se viram sobre
aquelas pedras, onde o mar não ousou chegar-lhes, enquanto lá por
cima, pela beira da rocha, mulheres e homens choravam aflitamente.
Passada a tormenta, um outro barco os
tomou e restituiu, sãos e salvos, ao carinho das esposas, dos pais e
dos filhos, a quem contaram, maravilhados, o prodigioso milagre da
Virgem!
*
Escutai, pecadores! Ainda a história não
findou.
Em memória deste sinal da bondade e do
poder de Nossa Senhora, a quem chamaram do Pranto, pelas muitas
lágrimas que em tristes olhos secara, quiseram os povos daqueles
sítios edificar-lhe uma ermidinha, humilde como eles, mas rica da fé
das suas almas.
E foi cá em cima, à beira do caminho,
que se lhe abriram os alicerces e se preparou a pedra. Mas quando
toda ela estava aparelhada para a construção da ermidinha, uma bela
manhã, indo os operários continuar a sua obra, não viram a pedra,
que tinha sido levada, não se sabia por quem, durante a noite, para
a beira da rocha...
Os operários pasmaram de assombro, e
todo o povo ali correu, a presenciar o misterioso caso.
A pedra foi novamente conduzida para a
beira da estrada, mas no dia seguinte amanheceu outra vez sobre a
rocha!
Que milagre era, pois, aquele?
E foram os espíritos rústicos dos
náufragos que tiveram a revelação de que era a Senhora quem a
transportava de noite lá para baixo, porque queria a sua ermidinha
dominando o mar, para olhar pela segurança dos que andavam sobre as
suas águas.
Ali deixaram a pedra, que não mais se
moveu; e sobre a rocha alta foi construída a ermidinha da Senhora do
Pranto, de quem eu fui também romeiro. / 335 /
*
Mas escutai ainda, pecadores como eu.
Durante a fábrica da ermidinha, como
ficasse longe a água para amassar o barro, demorado se tornava o
trabalho dos operários.
Houve então uma pobre mulher, velhinha e
fraca, que fez promessa de todos os dias a acarretar do povoado,
para não retardar o fim da obra piedosa.
Assim o fez, até que as forças de todo
lhe faltaram; e caindo de joelhos junto da ermidinha, cujas paredes
começavam a erguer-se, suplicou à Santa que não a desamparasse.
E ali mesmo, ante os olhos maravilhados
da pobre criatura, uma fonte começou nesse instante jorrando as suas
águas!
Está hoje a nascente envolta numa
garrida gruta, feita pelas mãos piedosas dos camponeses: e uma das
pedras, que resguardam o transvasamento da água, tem gravada a forma
dum pequenino pé, que dizem ser o da linda Senhora, que ali foi
beber.
Ficou a velhinha, durante a vida, sendo
a guardadora da branca ermida. Hoje, as cinzas do seu corpo estão
sepultadas lá dentro, sob o chão térreo da igreja, terra de
abençoados milagres.
*
Pecadores! Eis a mística e perfumada
historia, a que muitos de vós chamarão lenda.
Eu, por mim, verdadeira a creio, porque
muitos velhinhos ma contaram, chorando, no tempo santo em que eu era
também romeiro – ai! Que ainda o fosse! – da linda Senhora do
Pranto.
*
Senhora do Pranto! Senhora do Pranto!
Na
tua festa tens frutas maduras, cordeiros brancos, sementeiras novas,
lumes e flores, que te vão ofertar as crentes e ingénuas almas dos
teus romeiros. Mas generosamente pagas tu essas oferendas, Senhora
do Pranto!
Têm uma santa morte os velhinhos que
levam para casa um punhado de terra da sepultura da tua serva – e a
sepultura está sempre rasa! – Vivem ditosos os noivos que bebem da
água da tua fonte; há sempre riso nos lábios das crianças que beijam
a pedra onde poisou o teu divino pé, e nunca mais houve um naufrágio
nas águas do mar que a tua ermidinha vigia!
Senhora do Pranto! Senhora do Pranto!
Repara no pranto de meus olhos! Olha que eu também fui teu romeiro!
Ai! Quem o fosse ainda, Senhora do
Pranto!
Lisboa, 1905
RAPOSO DE OLIVEIRA

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